quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

I

Se eu acreditasse em forças divinas, era capaz de julgar que isto é castigo. Saí do emprego a gozar com as mães trabalhadoras, que têm que ir dar banho aos miúdos e fazer o jantar e toma: mais de uma hora no trânsito e uma dor de estômago valente.

Elas olham para mim uma vezes com aquele ar maternal; outras com nostalgia do tempo em que eram (mais) jovens e faziam o que lhes dava na gana. E cá entre nós, estou desconfiada que esta é a melhor altura da vida. Primeira casa, viver sozinha, não ter horários, não ter ninguém dependente, encher a pança de nestum porque não me apetece cozinhar, adormecer no sofá até tarde, deixar tudo desarrumado.

O que elas provavelmente não se lembram é do que se sente quando se está doente e não há mãe nem pai nem avós por perto para fazer uma canjinha e dizer "ó filha, deita-te que eu já te levo o remédio". Em vez disso tenho uma caixa de kompensan, um estendal de roupa para apanhar, a loiça do pequeno-almoço para lavar e ninguém que me faça um cházinho e umas torradas.

A vida de solteira e independente é muito boa na maior parte dos dias. Mas não hoje.

Elas pediram-me que inaugurasse este blog, porque sou a mais nova! E assim fiz. Sim, fui eu que apoiei a ideia de deixar as agruras da vida de lado. Mas hoje sinto-me assim, só e abandonada no meu T1, e não consigo encontrar, entre o estar agoniada e a lida da casa que não se faz sozinha, nenhum lado positivo.

Raparigas solteiras que eventualmente nos venham a ler: há dias, garanto-vos, em que elas conseguem desmoralizar-me. Mesmo. Acabar com os meus sonhos cor-de-rosa de que o casamento e os filhos e a vida em comum são coisas lindas e fáceis. Contrariar os meus planos de ter uma família perfeita, com uma equipa de futebol em miniatura a correr pela casa (enorme, claro, para lá caber toda a gente), com os cães a saltar no jardim. Desincentivar a natalidade porque depois nunca mais haverá uma noite de sono descansado, com os miúdos aos berros e um marido a roncar profundamente. Dizer constantemente come esse docinho, come, que ainda podes, para logo a seguir me lembrarem que as calorias quando nascem são para todas... e a força da gravidade também.

Mas eu não desisto. Porque elas, apesar destas pequenas lições de vida que me dão, são as maiores! E tenho a certeza que os 20's não podem ser assim tão diferentes dos 30's ou dos 40's. Eu sou a vintona e esta é a escola onde aprendo a ser gente grande.

A Escola da Vida sai assim da mesa do refeitório e abre oficialmente portas ao mundo!

I. (a vintona solteira)

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